Anatomia da corrupção

 Cientistas provam que existe um elo causal entre poder e corrupção. Descobriram isso ao analisar o comportamento de um grupo de jovens submetidos a vários testes 

Por Álvaro Oppermann 

Existe um elo entre poder e corrupção? Dois cientistas holandeses e um americano tentam provar que sim. Os psicólogos Joris Lammers e Diederik A. Stapel, da Tilburg University, de Amsterdã, e Adam Galinsky, da Northwestern University, de Illinois, identificaram um elo causal entre poder, status, hipocrisia e corrupção no cérebro e no comportamento humanos. Até hoje essa relação não tinha sido comprovada cientificamente. 

A pesquisa, publicada na revista Psychological Science sob o título Power Increases Hypocrisy: Moralizing in Reasoning, Immunity and Behavior (“O poder aumenta a hipocrisia: moralismo na razão e imoralidade na conduta”), destaca-se entre uma onda de trabalhos recentes sobre corrupção. A maioria afirma tratar-se de um mal que não se consegue extirpar por decretos ou sanções. Mas e se formos capazes de entender o que leva o ser humano a se corromper? 

Na pesquisa, os cientistas submeteram 150 estudantes holandeses a dilemas morais e comportamentais. Na primeira etapa, os psicólogos pediram a eles que recordassem, e escrevessem, uma situação na qual detinham poder, ou então na qual estivessem privados dele. “Psicologicamente, a lembrança vivenciada fez o pesquisado assumir a identidade de poderoso ou não poderoso”, diz Galinsky. Assumidos os papéis, começaram as surpresas. No primeiro teste, depois de responder a um questionário inócuo, os pesquisados foram encorajados a jogar um par de dados. O resultado seria correspondente ao número de rifas de um sorteio que se realizaria ao fim da pesquisa. Embora não soubessem, esse era o verdadeiro teste. O participante jogava os dados numa sala privada, em segredo. 

Para especialistas, transgressão não acaba por decreto ou sanção. 

Mas e se entendermos o que leva o homem a se corromper?

Os poderosos trapacearam muito mais do que os não poderosos. Depois, foi proposto ao grupo que julgasse um funcionário que tivesse maquiado as despesas de uma viagem de negócios para embolsar a diferença. Nesse caso, em que a reputação pessoal não estava em jogo, os poderosos mostraram-se mais duros com o funcionário. “O poder faz aumentar a hipocrisia pessoal”, disse Lammers. Torna o sujeito mais rígido em seu julgamento dos outros, mas ao mesmo tempo leniente consigo mesmo na hora de burlar as mesmas normas. 

É da assimetria entre direitos e responsabilidades, observam os pesquisadores, que nasce a impunidade, um problema global. No livro Economic Gangsters (“Gângsteres econômicos”), os autores, Raymond Fisman e Edward Miguel, mostram que gângster não é só o narcotraficante mas também o diplomata da ONU que usa sua imunidade para estacionar em fila dupla em Manhattan. Já o especialista em governança corporativa americano Sridhar Ramamurthy criou o triângulo da fraude para explicar a corrupção. Na base, existe o desejo de ter algo. Depois vem a oportunidade de consegui-lo por meios ilícitos. E da oportunidade surge a racionalização: “Não é tão grave assim”. “São problemas de transparência e responsabilidade”, diz Galinsky. 

A pesquisa identificou um fenômeno inverso entre os não poderosos: o excesso de autocrítica. “Eles se mostraram mais rígidos consigo mesmos do que com os outros”, disse Lammers. Isso só faz aumentar a espiral da desigualdade, já que o poderoso se acha livre para fazer o que quer. E o não poderoso é tímido demais para criticar, o que cria um círculo vicioso. 

Fonte: http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI125301-16363,00-ANATOMIA+DA+CORRUPCAO.html